quinta-feira, 4 de julho de 2013

Só 17% das pessoas reconhecem o conceito de stalking mas quase todos/as sabem o que é bullying


Um em cada quatro portugueses conhece uma vítima de bullying. Só 17% das pessoas reconhecem o conceito de stalking; mas quases todos/as sabem o que é bullying.


Sondagem é hoje apresentada. Dados mostram que é preciso criminalizar bullying e stalking, diz a APAV.

Alguém lhe envia todos os dias bilhetes ou flores - a mesma pessoa que está sempre a encontrar "por coincidência" nos locais que costuma frequentar, que lhe envia repetidamente emails, que andou a recolher informação sobre si e que você suspeita que é a que lhe telefona às tantas da noite mas não diz nada. Isto é stalking. E significa, no essencial, assédio persistente. 

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apresenta hoje os resultados de uma sondagem feita pela Intercampus sobre stalkingcyberstalkingbullying ecyberbullying. Mais de um quarto dos/as inquiridos/as dizem que conhecem alguém que já foi vítima de algum destes fenómenos e 5% assumem-se, eles/as próprios/as, como vítimas.A associação não tem dúvidas de que o problema será mais frequente do que parece. Isto porque a maioria da população (mais de 80%) não conhece o significado de stalking, ao contrário do que se passa com o bullying, ainda que quase sempre reconheça os comportamentos que lhe estão associados. Para além disso, as 1014 entrevistas conduzidas foram presenciais - e as pessoas nem sempre assumem, junto de um/a entrevistador/a, o que se passa na sua intimidade, diz Daniel Cotrim, assessor técnico da direcção da APAV.

Muitas das atitudes e comportamentos associados ao stalking e ao bullyingestão tipificados como crime (a agressão física, por exemplo), mas outros não - "Experimente ir à polícia dizer que alguém lhe manda todos os dias rosas caras. Dizem-lhe, provavelmente, que não podem fazer nada até que essa pessoa lhe dê uma estalada. E, no entanto, isso está a ter um impacto terrível na sua vida", diz Daniel Cotrim. Esta é uma das razões que levam a APAV a pedir que stalkingcyberstalkingbullying cyberbullying sejam considerados crime.

É ainda necessária uma prevenção mais eficaz deste tipo de vitimação "e a promoção de um apoio mais qualificado e efectivo às vítimas deste tipo de situações"O bullying é o fenómeno mais referenciado (por 88% das pessoas que se dizem vítimas ou que conhecem vítimas). A maior parte dos inquiridos reporta insultos, ameaças ou intimidações e agressões. E na maioria das vezes tudo acontece em ambiente de escola (em 55% dos casos os/as agressores/as são colegas de escola). Mas não só. Em algumas situações (13%) é um/a vizinho/a, em 10%, um/a desconhecido/a... Mas o bullying, garante Cotrim, também acontece frequentemente no local de trabalho. Outra das perguntas feitas foi: "Com que frequência ocorre a situação?" Em 41% dos casos a resposta foi "diariamente", sendo que 53% das situações referidas duraram até um ano.

No stalking a violência mais relatada é a psicológica (ameaças, por exemplo), no cyberstalking a colocação de comentários indesejados em blogues e/ou redes sociais. No bullying o mais comum é o insulto e a intimidação e no cyberbullying as injúrias e a importunação. As vítimas procuraram apoio (57%), sobretudo, junto de familiares. 

Comportamentos do stalker:

- Muito frequentes: recolher ou reunir informações sobre a vítima; enviar bilhetes e SMS; observar/perseguir, fazer esperas; espalhar rumores;

- Presentes em metade das situações: danificar bens pessoais da vítima; ameaçar (directamente ou de forma implícita ou simbólica); deixar flores/animais mortos ou outras coisas obscenas em casa ou no carro da vítima;

- Em 25% das situações: agredir fisicamente a vítima; violar ou tentar violar a vítima;

- Em menos de 2% das situações: matar ou tentar matar a vítima.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Marca de cosméticos angaria 10 mil euros para a luta contra a violência doméstica



Em todos os países onde atua, a marca de cosméticos AVON envolve-se na luta contra a violência doméstica. Portugal não é exceção.

Este ano, a campanha Uma Só Voz, em que a venda de um colar da marca reverteu integralmente para a Associação de Apoio à Vítima (APAV), rendeu 10 mil euros.

Após a entrega do cheque, o presidente da associação, João Lázaro, declarou que o "donativo terá como destino as duas Casas Abrigo da APAV, que acolhem mulheres e crianças vítimas de crime e de violência".

Em 2012, a instituição registou mais de 20 mil episódios criminosos, que deram origem a mais de 12 mil processos de apoio às vítimas. Em dois anos, o número de processos aumentou 8,4%.

A presidente da AVON Portugal, Adriana Giurissa, relacionou o impacto da crise com o maior número de casos: "Sabemos que o desemprego e as dificuldades financeiras criam um ambiente propicio à violência. Queremos que o mundo seja cada vez mais seguro para todas as mulheres e, por isso, continuamos ao lado da APAV".

Desde 2009, a marca já doou 57 mil euros à associação de luta contra a violência doméstica.



Os presidentes da AVON Portugal, Adriana Giurissa e da APAV, João Lázaro.

A propósito da violência no namoro... "Isto não é o que parece" por Paulo Farinha (in Notícias Magazine | Diário de Notícias)

"Isto não é o que parece..."

«Enviar-te 35 mensagens durante o dia a dizer que te ama e a perguntar onde estás não é uma prova de amor. É uma prova de que ele é um controlador e que, se tu deixas que ele o faça e não pões um travão a tempo, a coisa só vai ter tendência para piorar ainda mais.
Fazer-te perguntas sobre dinheiro não é indício de estar atento aos tempos difíceis em que vivemos, e reflexo de uma educação de poupança. Falar muitas vezes disso indica, isso sim, que um dia ele vai querer controlar o teu dinheiro. Aliás, se dependesse dele, era ele que geria já a tua mesada. Quanto gastas. Quando gastas. Em que gastas. Quando deres por ti, estarás a pedir-lhe autorização para comprar coisas para ti.

Pedir a password do teu e-mail ou da tua conta de Facebook não é sinal de que vocês nada têm a esconder um do outro. Não é sinal de que, entre vocês, tudo é um livro aberto. Mesmo que ele insista em dar-te a password dele. Isso é um sinal de desconfiança permanente. E um passo grande para o fim da tua privacidade. Sabes o que é privacidade, certo? É uma zona tua, onde mais ninguém entra. A não ser que tu queiras.

Os comentários sobre a roupa que usas ou o novo corte de cabelo não revelam um ciuminho saudável. Revelam que é ciumento. Ponto. Pouco lhe importa se tu gostas daquele top, daqueles calções ou daquelas calças apertadas. Entre os argumentos usados, talvez ele diga que já não precisas de te vestir assim, porque isso atrai a atenção de outros rapazes e tu já tens namorado. Se não fores capaz de lhe dizer, na altura, que te vestes assim porque te apetece, não para lhe agradar, pensa que este é o mesmo princípio que leva muitas sociedades a obrigar as mulheres a usar burka... Não é exagero. Controlar o que tu vestes é exatamente a mesma coisa.

Perguntar-te a toda a hora quem é que te telefonou ou ver o teu telemóvel, à procura das chamadas feitas e atendidas e das mensagens enviadas e recebidas não é um reflexo de pequeno ciúme. É um sinal de grande insegurança. Faças tu o que fizeres, dês tu as provas de amor que deres (na tua idade, o amor ainda tem muito para rolar, mas tu perceberás isso com o tempo), ele sentirá sempre que é pouco. E vai querer mais, e mais. E tu terás cada vez menos e menos.

Apertar-te o braço com mais força num dia em que se chatearam e lhe passou qualquer coisa má pela cabeça não é um caso isolado e uma coisa que devas minimizar porque ele estava nervoso. Aconteceu daquela vez e é muito, muito, muito provável que volte a acontecer. Um dia ele estará mais nervoso. E a marca no teu braço será maior. E mesmo que ele «nunca tenha encostado um dedo» em ti, a violência psicológica pode ser tão ou mais grave do que a física.

Gostar de ti mas não gostar de estar com os teus amigos não é amor. É controlo. E é errado. O isolamento social é terrível.Continuar a telefonar-te insistentemente depois de tu teres dito que queres acabar a relação, ou encher-te o telemóvel com mensagens a pregar o amor eterno, não significa que ele esteja a sofrer muito. Significa, sim, uma frustração em lidar com a rejeição. E se pensares em voltar para ele, pensa que da próxima vez que isso acontecer ele vai telefonar-te mais vezes. E enviar-te mais mensagens.

Guardares estas coisas para ti não é um sintoma da tua timidez. Não quer dizer que sejas reservada. É uma estratégia de defesa tua. E um pouco de vergonha, à mistura, não é? E que tal partilhares isso? Ficarias espantada com a quantidade de amigas tuas que passam por situações semelhantes...

Talvez a sua filha não leia isto. Mas que tal mostrar-lhe a revista, para ela pensar um pouco?»

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Ação de Formação em Igualdade de Género da Associação SEIES, em Odemira - Início em Julho

Divulgamos a Ação de Formação em Igualdade de Género da Associação SEIES.
O projeto IGUALANDO/TAIPA consideram interessante e pertinente esta ação e incentivaram a sua realização no Concelho de Odemira.
INSCRIÇÕES ATÉ 5 DE JULHO!


Violência Doméstica: a face silenciada no país da Igualdade de Género (Suécia)


Lidar com a violência doméstica, seja contra mulheres, crianças, idosos ou homens, é um tema sensível e delicado, que move complexidades imensas. E na Suécia, um dos países mais respeitados no que toca à igualdade de género, com legislação avançada e políticas progressistas, o tema da violência doméstica apenas recentemente começou a ser discutido em público.


A Euronews debruçou-se sobre violência doméstica contra mulheres e procurou vítimas e atores institucionais e jornalistas, todos envolvidos no processo de lidar com as vítimas, para perceber melhor o que a Suécia está a fazer para combater este fenómeno que mata mais mulheres no mundo do que, por exemplo, o cancro.

Veja a reportagem da Euronews:

Mais de 35% das mulheres vão ser violentadas pelo menos uma vez na vida

Mais de 35% das mulheres vão sofrer, pelo menos uma vez na vida, atos de violência cometidos por parceiros, familiares, conhecidos ou estranhos, estima a Organização Mundial de Saúde (OMS).

A agência das Nações Unidas, em parceria com a London School of Hygiene & Tropical Medicine e o South African Medical Research Council, analisou a prevalência de violência física e sexual cometida por parceiros íntimos e parceiros não íntimos (familiares, amigos, conhecidos e estranhos).

Segundo o relatório “Estimativas mundiais e regionais da violência contra mulheres: prevalência e efeitos na saúde da violência doméstica e sexual”, divulgado ontem, em Genebra, cerca de 30% das mulheres que já tiveram relações íntimas serão, nalgum momento, vítimas de violência física e/ou sexual cometida pelos parceiros.

Porém, o que surpreendeu a OMS foi o “já elevado” nível de exposição à violência – quase 30% – “entre jovens mulheres, com 15 a 19 anos”, sendo que o pico se situa entre na faixa etária entre os 40 e os 44 anos. No que respeita à violência física, o relatório conclui que 38% de todas as mulheres assassinadas foram mortas pelos seus parceiros íntimos.

Por outro lado, 42% das mulheres que sofreram violência física e sexual às mãos dos companheiros ficaram com danos físicos, que podem ir desde “ossos partidos a complicações na gravidez e perturbações mentais”. A violência íntima tem também impacto na saúde psicológica: por exemplo, as mulheres violentadas têm o dobro das probabilidades de depressão e alcoolismo; também é maior a probabilidade de contraírem doenças sexualmente transmissíveis (sida, sífilis, gonorreia) e de terem uma gravidez não desejada ou um aborto.

A prevalência global da violência perpetrada por um agressor que não é o parceiro íntimo, mas um familiar, conhecido ou estranho, desce para os 7,2% – mas as mulheres que dela são vítimas, pelo menos uma vez na vida, serão ainda mais suscetíveis do que as violentadas por parceiros íntimos de sofrerem de problemas de depressão, ansiedade e alcoolismo. Esta incidência de 7,2% tem de ser lida à luz do “medo do estigma”, que “impede muitas mulheres de reportarem a violência sexual cometida por não parceiros”, assinala a OMS, aconselhando os Estados a melhorarem as estatísticas sobre violência contra as mulheres.

Baseando-se nos dados de um conjunto de países e territórios selecionados nas várias regiões do mundo, a OMS projetou estatísticas globais e regionais. As maiores incidências de violência contra mulheres por agressores íntimos registam-se nas regiões de Sudeste Asiático, África e Mediterrâneo Oriental. Seguem-se América, Europa e Pacífico Oeste. África e América lideram a tabela da violência cometida por parceiros não íntimos, mas, se o mundo for dividido em zonas de baixos e elevados recursos, é nestes últimos que este tipo de agressão é mais comum.

Se combinados agressores íntimos e não íntimos, a região de África lidera as estatísticas globais, com 45,6% das mulheres sujeitas a violência, pelo menos uma vez na vida, enquanto a Europa regista uma incidência de 27,2%.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Processos de violência doméstica são arquivados em 80% dos casos

Mais de 80% das queixas por violência doméstica acabam arquivadas na justiça. Um crime de difícil prova quando as vítimas se calam. O medo traz o silêncio, muitas vezes apenas para elas se protegerem. 

Nos últimos dois anos, dos 50579 processos que entraram no Ministério Público (MP) por queixas de violência doméstica, só 8179 resultaram em acusações. Um número avassalador de arquivamentos, a rondar os 80%, num crime de difícil prova e onde as vítimas têm um papel fundamental para que o processo não finde. No entanto, muitas delas remetem-se ao silêncio e o medo é um sentimento que acaba por arquivar muitos desses processos.

"As vítimas calam-se porque não se sentem protegidas. Se as ameaças continuam e se não foi aplicada uma medida de coação eficaz, as vítimas remetem-se ao silêncio apenas para se protegerem", realça Sónia Reis, psicóloga criminal e gestora do Gabinete de Apoio à Vítima de Setúbal.

"Quando denunciam o crime as autoridades agem, mas é naquele momento, depois o risco mantém-se. Uma medida de afastamento, por exemplo, vale o que vale para um agressor. Uns respeitam, outros não", destaca.

Existem, porém, outras situações em que as vítimas não colaboram com as autoridades porque já se encontram de novo na relação com o agressor e se, por um lado, têm medo de represálias, por outro, acreditam que a violência vai parar. "A urgência da ação judicial não corresponde aos tempos vivenciais das pessoas. Algumas vítimas retomam as relações acreditando que o agressor vai mudar e assim não pretendem dar continuidade ao processo crime", destacou a psicóloga Alexandra Dourado, da UMAR, para apontar: "Há vítimas que, já separadas, não voltam a ser agredidas, mas receiam que ao dar continuidade ao processo voltem a ser revitimizadas. Outras têm medo pelos familiares e não colaboram com a ideia de que assim a violência diminuirá".

Para Maria Fernanda Alves, responsável pela Unidade Contra a Violência Doméstica, do DIAP de Lisboa, este é o grande revés nas investigações deste crime. "É um tema muito pessoal e um crime que geralmente ocorre no seio familiar. Muitas vezes as vítimas só querem que a agonia pare naquele momento. Quando se avança com o processo, recuam. Aí se as vítimas se calam, os agressores se calam e não há testemunhas, é difícil fazer a prova", salientou, destacando a título de exemplo a violência contra idosos: "Alguns são maltratados pelos filhos, mas não dizem nada porque não querem que ninguém lhes faça mal... porque são os seus filhos!". Para a procuradora este é um problema transversal a todas as classes sociais e cujas denúncias raramente chegam pela voz da vítima.

Apesar de salientar que as estatísticas dos arquivamentos podem ser enganosas, porque, por vezes, o arquivamento ocorre simplesmente porque o crime, à partida, foi mal catalogado, relembra que o depoimento para memória futura - a vítima só prestar um depoimento na altura da participação do crime -, são uma arma que poderá combater esses números.